quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Enquanto isso, na Unidade Prisional...

- Doutora, trouxe umas poesias que eu escrevi lá na minha cela pra senhora ler.
- Ué, mas eu pensei que você não soubesse ler ou escrever!
- Eu não sei. Mas é como se eu visse as palavras flutuando no ar, pegasse elas com a mão e as colocasse no papel...


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A tal da arte

Enfim estou retomando mais uma vez os posts desse blog. Retorno seguindo a sugestão do meu estagiário que me ouviu resmungar a manhã toda de hoje, por conta da suspensão de uma resolução muito bem vinda do CFP.
"Filha da puta esse sistema judiciário brasileiro".
" Eles fazem o que querem conosco, porque representam a soberania, não respeitam nossa profissão".
Acho que penalizado pelo amargor do meu mau humor matinal pós feriado, procurando soluções entre um xingo e outro, ou simplesmente para me fazer calar a boca, o simpático estagiário dispara:
"Você tem uma opinião forte! Deveria fazer um blog, e lá meter o pau em todo mundo!"
Acho engraçado esses universitários. Desde quando meter o pau em todo mundo resolve alguma coisa?
Mesmo assim, achei a idéia bem vinda, até porque se tem alguma coisa que eu sei fazer muito bem é criticar. E reclamo bem! Fundamento minhas críticas e quase convenço quem tem saco de me ouvir. Além do que, eu me lembro que escrevia muito bem quando estava em estado emocional caótico. E eis me aqui, trabalhando doze horas diárias, fazendo duas pós, com uma insônia violenta e milhões de questões emocionais em pauta.
Mas isso não é assunto para este post. Esperemos um pouco mais de dor e aí me lanço nas poesias.
Sobre o que escrever então?
Resolvi escrever sobre a tal da arte. Vamos a ela.
Estou longe de ser uma especialista no assunto, sou uma apaixonada pelo teatro, pela música por pintura. Sou leiga, porém curiosa. E experimento as sensações que a arte proporciona, a embriaguez segundo Byron, tão necessária para sentir a realidade e o outro, a vida embebida de sentidos e a reflexão necessária pra não nos levarmos pela cegueira. Arte é isso não é? Algo que faça tamanho sentido que modifique caminhos e percepções.
Entretanto confesso que ultimamente, tem-me sido desafiador compreender essa tal arte. Dia desses, assisti a uma peça na metrópole onde meio a discursos desconexos, personagens ambíguos, em uma cena pouco clara o ator enfia seu dedo lubrificado em vinho no anus do outro ator, seguido de uma lambida no cu. Este por sua vez, simula um orgasmo contraindo sua musculatura anal, enquanto a câmera filma com zooms generosos , certificando que todos alí estão entendendo o que se passa.
Quando vi a perplexidade dos que estavam comigo, disparei:
" Isso é uma expressão antropofágica do amor homossexual, partindo de uma expressão vulgar do tomar no cu. Como uma palavra de baixo calão deve ser mistificada, a proposta é mostrar que o amor homossexual é também no cu, percebem, uma forma de tornar comum e acabar com preconceito" .
Eles acenam com a cabeça concordando, outros se retiraram. Não tenho a menor idéia se o diretor realmente tinha essa mensagem para passar, ou se a coisa descambou de vez. Lá no fundo eu torci para estar certa, mas fiquei pensando que talvez por se chamar arte a gente se torne passivo a qualquer coisa.
Mas a confusão não para por aí. Me arrisquei também em uma exposição de quadros. Pintor famoso. Europeu. Uma fila gigante. Na fila mocinhas engraçadas, com roupas esquisitas. Acho que deve ter um guarda roupa específico pra amantes de arte. Geralmente os cabelos são ensebados, as calças saruel, uma bolsa dessas de crochê é obrigatória.
Uma delas comenta:
" Olha este. Percebem? Isso é inovador, perceba as linhas, a sutileza do desenho. Está vendo que tristeza?"
Eu juro que fui lá ver, seguindo as mocinhas esquisitas. As linhas eram mal traçadas, xilogravuras horrorosas, esboço mesmo.
"Tenho certeza que mandaram as piores criações dele ...as melhores devem estar em um museu né?" - arrisquei falar para um amigo que me acompanhava, enquanto os outros que ali estavam me olharam com um ar engraçado que diz - essa não entende nada!
Será mesmo que a arte está indo para um caminho que não estou captando mais, ou nossos artistas estão se tornando perversos e preguiçosos?
Espero que não, senão, pobre de nossas sublimações....

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Ela.

Magritte

De longe eu a observava. Seus movimentos pareciam vindo de um transe e traduzia sua vontade de integrar-se àquela massa disforme de rostos e pessoas. Os movimentos que ela fazia com o corpo e com os cabelos, eram comuns para a maioria que nos rodeava, todos faziam o mesmo, seguindo o som grave dos surdos e dos batuques do maracatu. Mas ela tinha algo mais: tinha graça, uma beleza indiscreta e sedutora, incenava num palco imaginário seus encantos e sua feminilidade, como se não houvesse nada mais ao redor.

Mas eu via além do belo espetáculo da beleza que fora vendido. Via incenado no seu palco, angústia. Ouvia o grito silenciado dos seus anos sofridos, das suas dores contidas, dos seus medos guardados e o vazio da graciosidade dispensada aos homens que a rodeava com desejo. Via na indiscrição da sua dança, pedidos discretos de ajuda.

Queria tê-la por perto. Não conseguia mantê-la ao meu lado, ninguém conseguia. Era um espírito livre que fazia um esforço tremendo para fazer parte de algo, e um maior ainda para ser alheia a ele.
E de longe eu a observava, linda, sedutora, triste. Tão longe de mim, tão distante de sí.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Desabafo

M.C Escher

Que me desculpem o desabafo, mas a verdade é uma só: Isso de querer tirar interpretação de fatos que nos acontecem inesperadamente, de fazer mudanças repentinas e desajeitadas para uma reorganização de vida que parte do pressuposto que- " tudo que ocorre, ocorre por uma razão" - para mim é desculpa de comodidade. Não sei lidar com o que não planejo e tenho a ilusão de que controlo tudo. Sim, adimito que seja uma ilusão, pois o inesperado acontece, situações nos são impostadas, mas eu caminho novamente, em direção oposta, para reestabelecer a ordem abalada, se é ali que acredito que eu deva ficar. Quem dita o que acontece comigo sou eu! E mesmo que eu não controle todas as variáveis de minha vida, escolho o que fazer com elas. Não sou contra mudanças, pelo contrário, sou a favor de um abalo sísmico subjetivo, ora ou outra, para termos a oportunidade de repensar pontos de vistas, questões morais e comportamentos. Mas adequar situações com pesar, porque assim deve ser? Nem morta!
Além dessa ilusão de controle e auto suficiência, sofro de outros males: neurose, fixações e paranóia. E não, não acredito que eu seja homossexual pelo último mal descrito, ou talvez seja, mas isso não é importante no momento. O que importa é que vez ou outra a forma como vivo não se adequa ao que considero correto: tenho comportamentos absurdos, atitudes irracionais e um estilo de vida que, gostaria absurdamente de mudar, para ser diferente do que sou. Entretanto, como sou também a parte que não quero de mim, dou um jeitinho de encaixa-la alí e formar a conjuntura de unicidade. Por mais bizarro que pareça, escolhi viver de fragmentos e vivo bem, obrigada. Feliz? Ora ou outra, o que já é suficiente, ou vocês acreditam em felicidade eterna? Por favor!
Fora isso, ainda fazendo jus ao título deste texto, sou extremamente egoísta, tudo deve ser do meu jeito, porque obviamente é o mais correto. Sou arrogante e só sei falar de mim, bem digam os posts desse blog.
Mas ao contrário do que possa parecer, me divirto com minhas características, por piores que sejam julgadas e me sinto bem por tê-las, porque sou verdadeira.
Claro eu também sorrio quando não quero, socializo por conveniência, presto favores contrariada. Tenho uma bondade que se manifesta, principalmente nos dias de inverno. Gosto de ensinar. Gosto de criança de rua.

Mas manifestar bondade para conseguir alguma coisa? Nunca. Agradar alguém para ter garantia de companhia sempre? Jamais! Fingir fragilidade para ter o apoio? Nem morta!

E acreditem vocês, tem gente que consegue me amar. Explicação para isso só encontro num fragmento da Clarice Lispector....."Isso lhe assusta? Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo."

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Animal de estimação.

Henri Matisse

Nunca tive um cachorrinho de estimação. E olha que sou filha única e a idéia de um animalzinho em casa é bastante interessante se considerarmos o vínculo e a afetividade desprendida nessa relação, para a criança. Infelizmente meu pai não era leitor nem adepto de livros de psicologia na época e sequer sedia aos meus apelos.

- Cachorro dá trabalho, quem é que vai cuidar, você?
- É, eu cuido.
- Até parece, é capaz de deixar o cachorro morrer de fome e de sede.
- Não deixo não! Eu cuido- dizia com os olhinhos lacrimejantes.
- Não, porque solta pêlo e a casa é pequena.
- Eu varro pai, deixa!
- Quando a gente mudar de casa eu compro um.

Eu podia tentar usar a antiga e conhecida arma dos filhos únicos de mobilização parental : me jogar no chão, espernear, gritar - eu quero, eu quero, eu quero -na exposição de filhotes nas saídas dos supermercados, onde até as velhinhas com seus carrinhos de feira sentiriam-se sensibilizadas. E aí a mãe, o exemplo de candura da família diria -Vamos levar um, para a menina, afinal ela merece- e o pai austero acabaria cedendo aos encantos da bela esposa.
Ensaiei o ensejo, mas o que aconteceu foi que, depois do meu pequeno ato teatral amador, cheguei em casa e conheci a força do ryder. Sabe o ryder, o chinelo? Aquele mais grosso, mais duro, mais dolorido de todos. Apanhei com o chinelo número 44 do meu pai até aprender não dar mais vexames em públicos.

O problema é que ainda queria um bichinho, e um dia andando pelos quintais da minha vó achei uma rã. Era engraçadinha com aquelas perninhas compridas e um jetinho desengonçado, toda úmida. Brinquei com ela a tarde toda e não tive dúvidas, levei a rã para casa.

- O que você tem aí Irene?
- Um bichinho que eu achei no jardim, mãe, ele é meu e não tem mãe.
- Como você sabe? Que bichinho é esse?
- Porque ele tava sozinho no jardim, é meu - já falava brava.
- Deixa eu ver....é uma rã! Uma rã! Joga isso fora, já! Tem doença, menina doida!

E lá se foi meu bichinho, que saiu correndo desenfreado, não sei se pelos gritos da minha mãe, ou pelo alívio de não ser mais esmagado pelas minha mãos.
Mas, nem tudo estava perdido na minha infância solitária de bichos de pelúcia poeirentos. Um dia, meu pai chega com uma surpresa: Comprou um bichinho de um bêbado por dó, do bichinho é claro, que era mal tratado e pisoteado. Pagou uma ninharia. O que era? Uma tartaruga.

Fiquei animada com meu amigo cascudo. Mas ele não lambia, não corria, não fazia barulho, só ficava lá parado.

- O que ele faz pai?
- Ué, dá comidinha pra ele, ele vai crescendo.
- Mas ele não brinca, falei desapontada.
- É um bichinho selvagem.É assim mesmo, não faz sujeira.

O pior é que era selvagem e chato. Todo inverno ele se enfiava numa casinha e ficava meses lá sem comer, sem sair, ibernando, todo encolhido. Quando eu ficava impaciente eu puxava ele da casinha e ficava batendo no casquinho, até a cabeça dele se esticar. Fazia carinho nele, nas patinhas e nada! Lá ia ele se enfiar na casinha denovo.

Mas como o destino não é assim tão cruel e meu pai tem um coração mole, achamos numa viagem que fizemos a um sítio, um ninho, que provavelmente caiu de uma árvem recém cortada. Periquitos, todos filhotes. Queria todos, mas após ficarem grandinhos pude ficar só com um, que chamei de Niquinho.
O Niquinho era barulhento que só. Acordava todos os dias as sete da manhã e entoava um som de gralha com maritaca, que acordava todos os vizinhos. E era bravo! Não gostava de carinho não! Bicava até, o dedo, o ombro, a tartaruga.

- Ele é selvagem, é assim mesmo, dizia meu pai. Já deu as sementinhas pra ele?
- Mas ele bica pai, como vou colocar a mão dentro da gaiola?
- Tem que trocar a água também. Não consegue nem com um passarinho, ainda quer ter um cachorro? Deu alface pra tartaruga?
- Ela tá lá enfiada e não sai!
- Tá vendo, como quer ter cachorro?
- Ela iberna pai. Não come.
- Tá vendo, você não pode ter animal de estimação!

Malditos bichos selvagens. E eu só queria um cachorrinho.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Pela metade.

Marc Chagall

Sou mais ou menos alegre,
Mais ou menos ambígua,
Mais ou menos alerta,
Mais ou menos amiga.
Sou mais ou menos esperta,
Mais ou menos bonita,
Mais ou menos correta,
Mais ou menos fingida.

Sou mais ou menos tudo.
Sou mais sonhos e menos mundo,
Mais cordas e menos música,
Mais os outros e menos única.
E de tanto ser mais ou menos,
Sou mais ou menos eu.
Um ser pela metade, pelas frestas,
Meio rosto, meio gosto, meio morno.
Meio bobo, meio torto, meio tudo.

Um ser mais ou menos,
Menos eu e mais vazio.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Circustâncias.

Rene Magritte

Cedo ou tarde chega a hora do confronto: como expectadora, uma noite fria e mal dormida de outono que facilita a instrospecção solitária. De um lado, a ilusão que luta para se mater em pé diante à frieza quase incontestável da realidade dos fatos. O confronto está selado, e a única sensação que fica enquanto forças opostas tentam sobrepujar a verdade é traduzida numa única pergunta:


Onde eu estava esse tempo todo?


Saio de um entorpecimento quase absurdo, louco e cego, e sou jogada sem aviso numa batalha onde não tenho armas para lutar.


Onde estão as minhas armas?


É ensurdecedor o grito que minha alma cala. É caótico e confuso onde estou agora.

Não sei onde estou, nem porque estou e sequer como fui jogada aqui. Como sobrevivo, não sei, se fujo ou se fico.O que sei, é que minha rotina permanecerá a mesma e a minha expressão vai ser de suavidade e serenidade com um sorrisinho espontâneo para os que cruzarem o meu caminho. Mas sei que aqui dentro, não vejo, não ouço, não creio. Lamento.